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Entre as 100 melhores, ONG tem planos para os próximos 200 anos

Instituto Elos tem mais de 20 anos de atuação e já chegou a mais de 50 países. Conheça a história, os desafios e os projetos para o futuro

Uma organização de educação e assistência social que forma e apoia lideranças para que possam transformar a realidade de suas comunidades. Esse é o Instituto Elos, um movimento que já alcançou 40 comunidades na Baixada Santista e mais de 300 em 21 estados brasileiros, além de formar mais de 4000 lideranças que espalham esse movimento por cerca de mil comunidades, em 51 países. Em 2020, a ONG foi destaque entre as 100 melhores do Brasil e, por isso, quem responde às tradicionais perguntas do nosso blog hoje são os dois co-fundadores do projeto: Rodrigo Rubido (Diretor de Relações Institucionais) e Mariana Gauche (Diretora de Operações e Estratégia). Boa leitura!

Qual é a história que deu origem à ONG? O Instituto Elos é fruto do engajamento social, das inquietações e experimentações de um grupo de 5 estudantes de arquitetura e urbanismo, na cidade de Santos, no início dos anos 90: Alexandre, Edgard, Mariana, Natasha e Rodrigo, que se encontraram no movimento estudantil. Lá compartilhavam a busca por uma arquitetura que ouvisse mais as pessoas e as considerasse como co-criadoras dos projetos, que levasse em conta as diferentes culturas e realidades, que valorizasse a criação coletiva e que estivesse conectada com os maiores desafios das cidades, especialmente olhando para aquelas pessoas que estavam muito longe de ter acesso à arquitetura, como nas favelas e periferias da cidade. Também sonhavam com uma educação diferente, onde pudessem aprender fazendo, em contato direto com a realidade. Dada a dificuldade em conseguir mudanças junto às estruturas da faculdade, o grupo resolveu empreender sua própria experiência de aprendizado fora das paredes da universidade, para dentro das comunidades, de onde não saíram mais. No início eram experiências acadêmicas autônomas, lideradas pelo grupo enquanto estudantes. A primeira delas foi em 1995 com a organização de um encontro nacional de estudantes, onde os cursos da programação aconteciam em “salas de aula” ao ar livre espalhadas em 10 bairros da cidade. Naquele momento, cerca de dois mil estudantes do Brasil foram expostos à uma nova forma de aprender. Mas quem mais se transformou com esse processo foi o próprio grupo, que já não se satisfazia apenas com o curso regular na faculdade e queria estar cada vez mais interagindo e aprendendo com pessoas e situações reais.

No ano seguinte, os amigos embarcaram no desafio de projetar um novo Museu de Pesca para a cidade, restaurando um edifício histórico completamente degradado e fechado há 11 anos. O projeto durou 4 anos e envolveu mais de 100 estudantes em uma experiência de extensão universitária pautada no engajamento e escuta da cidade para que o novo museu expressasse os sonhos da cidade, em especial das crianças e das comunidades caiçaras que cultivam a cultura da pesca. Por meio dessas experiências, o grupo acabou desenvolvendo e sistematizando metodologias para formação de lideranças e mobilização social, sempre pautadas em processos de escuta e criação coletiva. Em 1998, criaram o curso Guerreiros Sem Armas, para formar lideranças jovens da América Latina em suas metodologias. No ano 2000, com todas as pessoas do grupo formadas e logo após terem realizado a primeira edição do curso, os estudantes percebem que aquele era o caminho que gostariam de seguir profissionalmente e então resolvem fundar o Instituto Elos, com o propósito de continuar formando lideranças jovens e mobilizando comunidades para a realização de sonhos coletivos.

Qual é o maior desafio de gestão que vocês têm hoje? A nossa organização tem hoje mais de 20 anos de atuação, uma metodologia consolidada, e uma rede de multiplicadores espalhados por 51 países. Isso traz muita responsabilidade e precisamos garantir que a organização esteja madura e forte o suficiente para não apenas seguir fazendo a melhor entrega para a causa como também poder escalar sua ação para um maior impacto. Isso inclui ampliar a captação de recursos através da diversificação de fontes de receita da organização e mobilização de grandes doadores. Nossa meta maior aqui é a constituição de um Fundo Patrimonial que possa assegurar a perpetuidade do trabalho para além da geração fundadora. Após 20 anos, já entendemos que nosso trabalho ainda será relevante para o mundo, não apenas para os próximos 20, mas para os próximos 200 anos. Tudo isso traz diversos desafios para além da mobilização de recursos. Implica consolidar processos, sistematizar métodos, ampliar e desenvolver a equipe, garantindo capacidade para operacionalizar tudo isso. Por outro lado, é também um desafio seguir alimentando o conhecimento sobre comunidades e juventudes, manter a proximidade em tempos pandêmicos e atualizar as percepções sobre estes públicos, cuja realidade vem se transformando de forma desafiadora nos últimos 2 anos.

E os planos para esse ano e próximo? No âmbito institucional, dedicamos o último ano à revisão da estrutura organizacional, e estamos chegando à fase de implementação dela. Além disso, a pandêmia exigiu um reposicionamento do Instituto Elos tanto na relação com as comunidades, o que deu origem a um programa de assistência emergencial que nos colocou ainda mais próximos das comunidades, quanto na relação com as juventudes, já que nossos programas de formação presenciais precisaram ser remodelados. O que começou como ação para mitigar perdas, tem se revelado fonte de grandes oportunidades e ampliação de impacto, por isso os planos incluem o lançamento de formações on-line para lideranças, além dos programas de protagonismo juvenil e comunitário com mentorias e repasse de recursos que demonstraram grande potencial nos últimos dois anos. Não podemos deixar de mencionar ainda o Espaço Elos, um centro de aprendizagem e desenvolvimento humano e comunitário que será construído em uma bela área verde na cidade de Santos. O projeto sustentável foi concebido a muitas mãos até aqui e representa um marco urbano e social. O terreno já foi adquirido e os projetos técnicos estão bastante avançados, o próximo passo é a mobilização de recursos para a sua construção.

Conta pra gente o maior orgulho do trabalho ou uma história de voluntariado? Podemos falar que nos orgulhamos muito de ter sido responsáveis pela construção da primeira creche comunitária da favela do Dique da Vila Gilda em Santos, há 20 anos. É uma alegria imaginar todas as crianças que tiveram a oportunidade de frequentar aquele espaço ao longo desse período. Também poderíamos falar da primeira escola do bairro São Paulo em Guiné Bissau ou da primeira praça de centenas de comunidades do Brasil e mundo afora e imaginar quantas crianças tiveram uma infância mais segura e divertida por conta disso. Saber que nosso trabalho fez a diferença para essas crianças nos enche de alegria e satisfação. Mas, talvez, o que mais nos orgulha é saber que o Instituto Elos não está presente em nenhum desses lugares, mas que deixamos lá pessoas que despertaram para o seu potencial de transformar suas vidas e suas comunidades. Pessoas que podemos chamar de amigas, que quando reencontramos nos recebem de braços abertos.

Foto: divulgação/ Elos

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