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Criando protagonistas de suas próprias histórias

Conheça o trabalho do instituto que ajuda crianças e adolescentes a reconhecerem que cada trajetória é única e tem valor

O Instituto Fazendo História é uma ONG que apoia crianças e jovens separados de suas famílias. O foco do trabalho é fazer com que essas pessoas se tornem capazes de construir histórias de vidas potentes, interrompendo um ciclo de abandono, ruptura e violência.

A organização desenvolve vários programas, todos com a missão de colaborar com o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes com experiência de acolhimento, a fim de fortalecê-los para que se apropriem e transformem suas trajetórias. Nossa entrevistada de hoje é a Andreia Barion, diretora executiva do Instituto. Ela falou sobre o trabalho e também sobre a importância de estimular a cultura da doação no país. Boa leitura!

Qual é a história que deu origem à ONG? A experiência das 4 psicólogas que fundaram o Instituto Fazendo História acompanhou um processo histórico no país. Décadas atrás, o serviço de acolhimento – antigo orfanato ou colégio interno – era conhecido como espaço de abandono, funcionando como grandes instituições isoladas da sociedade. A partir da década de 1990, com a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, foram estabelecidos novos parâmetros de atendimento e surgindo estratégias para uma maior profissionalização destas instituições. A nova legislação trouxe a visão de que o período de acolhimento, embora provisório, deve ser reparador, pautado em um trabalho que considere as singularidades de cada criança e adolescente. O caminho para a mudança estava aberto, mas era longo. Nesse período, as fundadoras do Instituto entraram em contato com a realidade de serviços de acolhimento onde os educadores ainda conheciam pouco as crianças e essas, por sua vez, conheciam pouco suas histórias. Ao mesmo tempo, foi possível identificar um desejo da comunidade em realizar trabalho voluntário nesses serviços, mas sem saber ao certo o que fazer, promovendo festas e atividades isoladas e sem sentido. A ideia que deu origem ao Instituto foi a de mobilizar essa comunidade para o trabalho com histórias dentro dos abrigos: histórias lidas nos livros e histórias de vida. Nascia assim o programa Fazendo Minha História. Desde 2002, o Instituto forma voluntários para um trabalho de mediação de leitura e registro da história de vida de crianças e adolescentes acolhidos. De lá para cá, o projeto cresceu e criou 4 novos programas, além de um serviço de acolhimento familiar.

Qual é o maior desafio de gestão que vocês têm hoje? Como a maior parte das organizações do terceiro setor, a sustentabilidade financeira é sempre um desafio. No começo da pandemia, houve uma grande mobilização da sociedade e os valores doados bateram todos os recordes anuais históricos, mas as doações foram decrescendo conforme a crise econômica se agravou. É preciso estimular a cultura da doação no país, para que esse movimento solidário se mantenha ativo mesmo após a pandemia. Estamos fazendo campanhas periódicas no Instituto para fomentar a doação, especialmente de pessoas físicas. A pandemia também nos obrigou a adaptarmos nossos atendimentos e formações, que passaram para a forma virtual, com perdas e ganhos. Agora, temos o desafio contrário, de pensar no retorno. Sabemos que a vida no escritório dificilmente será como antes. O modelo virtual tem vantagens, como a economia de tempo e desgaste com deslocamentos. Por outro lado, dificulta o contato e as trocas entre as equipes dos programas. Coisas boas surgem do encontro e não podemos esquecer disso.

E os planos para esse ano e próximo? Com novos modelos de trabalho, é preciso rever e melhorar a gestão de processos e projetos, com foco na qualidade técnica. Para o próximo ano, o Instituto quer fortalecer seu programa de advocacy. Há um ano, ajudamos a criar e participamos ativamente da Coalizão pelo Acolhimento Familiar, que tem como objetivo aumentar o acolhimento em família acolhedora no país de 4% para 20% em 3 anos. Em 2020, queremos nos dedicar também à pauta dos jovens que precisam sair dos abrigos pela maioridade e não contam com o amparo de nenhuma política pública que os auxilie nessa transição.

Conta pra gente o maior orgulho do trabalho ou uma história de voluntariado? O Instituto trabalha com histórias de vida. São histórias potentes, e cada conquista nos enche de orgulho. Dia após dias, ao promover um atendimento individualizado, ao olhar para cada criança, jovem e familiar como únicos, sabemos que estamos contribuindo para as transformações necessárias. Compartilho aqui uma breve história recente do Instituto.

A menina Andry, de 9 meses, vivia em uma ocupação no centro de São Paulo com seu pai, Gustavo, e seu irmão de 8 anos. Gustavo, um colombiano que há muitos anos vivia no Brasil, trabalhava como ambulante na região. A bebê passou mal e seu pai a levou às pressas para o hospital. Descobriu-se que a menina havia sofrido uma parada cardíaca e que precisaria passar por muitos procedimentos médicos. Como a mãe de seus filhos vivia em situação de muita fragilidade, Gustavo era responsável pelas duas crianças. Com os problemas de saúde de Andry, percebeu rapidamente que não conseguiria cuidar da filha e trabalhar para sustentar a família. A pequena Andry foi acolhida temporariamente por uma família acolhedora através do serviço de acolhimento familiar do Instituto Fazendo História, que cuidou dela durante esse período tão delicado. Enquanto isso, Gustavo voltou a trabalhar e conseguiu se reorganizar. Ele manifestava o desejo de voltar para a Colômbia, para viver com seus familiares. Enquanto acompanhava Andry, o Instituto se mobilizou para arrecadar fundos para as passagens de Gustavo e seus dois filhos. E em março de 2020, eles conseguiram retornar com segurança para a terra natal de Gustavo. Andry está saudável e vem se desenvolvendo normalmente.

Foto: divulgação/ Instituto Fazendo História

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