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“Para cada obstáculo, uma solução”

Casas André Luiz, uma das 100 melhores ONGs do Brasil, é inspiração sobre como vencer dificuldades e conta trajetória de 71 anos de atuação

“Vai longe o tempo em que as Casas André Luiz foram fundadas. Foram pessoas inspiradas que projetaram levar ajuda a famílias extremamente pobres, crianças órfãs e abandonadas. No entanto, a verdadeira vocação não era essa, mas, assistir com carinho e cuidado crianças deficientes intelectuais”, começa a contar Anelise Ramos, responsável pelo departamento de Comunicação e Marketing da organização Casas André Luiz, reconhecida entre as 100 melhores do país na edição 2020 do Prêmio Melhores ONGs. Ela contou o restante dessa história, que já tem 71 anos, além de responder às tradicionais perguntas de sempre. Não deixe de ler!

Qual é a história que deu origem à ONG? Nossa história gira em torno da personalidade de João Castardelli, que viveu apenas 23 anos (1920-1943), dedicando-se ao “Evangelho no Lar”, em reuniões que ocorriam em sua casa. Após mais ou menos um ano de seu falecimento, ele começou a se manifestar nas reuniões que a família continuou a fazer, transmitindo orientações espirituais aos necessitados e sempre dizendo aos presentes que, num futuro próximo, o grupo desempenharia uma grande missão no campo da assistência social. Com o passar do tempo, a reunião familiar passou a ser uma reunião pública, atraindo um número cada vez maior de pessoas, o que fez com que o pai de João tivesse que construir um grande salão sobre a sua residência em Santana, bairro de São Paulo. Esse local acabou se tornando a sede social do Centro Espírita Nosso Lar por 36 anos, até a aquisição de um terreno e construção da nova sede na rua Duarte de Azevedo, também em Santana, em janeiro de 1949.

Como consequência do trabalho desenvolvido, foi criado, em 1953, o Departamento de Assistência Social, que tinha o objetivo inicial de atender às necessidades materiais de irmãos carentes. Ao final de 1954, além dos trabalhos de ordem doutrinária e espiritual, o trabalho começou a angariar também alimentos, roupas, agasalhos e outros artigos de uso pessoal e doméstico, para as famílias pobres cadastradas. Em 1958, foi inaugurada, no Bairro de Vila Galvão, em Guarulhos, a Casa da Criança André Luiz, com apenas 15 crianças carentes com deficiência mental. Inicialmente contávamos apenas com trabalho voluntário, mas logo percebemos a necessidade de mão-de-obra especializada, pois as 15 crianças constituíram somente o grupo dos primeiros hóspedes, além de começarem a chegar também outras crianças com deficiência mental severa e profunda.

As mãos caridosas que tanto ajudaram antes, não pararam de trabalhar e, em 1962, mais uma casa foi inaugurada, no bairro do Picanço em Guarulhos. Teve início assim a Unidade de Longa Permanência, que hoje abriga quatro unidades, além de serviços de apoio como manutenção, lavanderia, serviço de nutrição e dietética, costura, creche e administração. A esta altura, a Instituição já estava com seus estatutos reformados tendo definidos a estrutura e os seus objetivos, inclusive o nome Centro Espírita Nosso Lar Casas André Luiz. Contudo, logo depois, celebramos um convênio com o Governo do Estado e, todos os meses, novas crianças chegavam. A Casa rapidamente atingiu sua capacidade máxima de 212 crianças, chegando a ter uma fila de espera de três mil internações. Em razão dessa enorme procura tornou-se necessária a construção de uma Casa maior e, em 1959, adquirimos um terreno para a Unidade de Longa Permanência, localizada em Guarulhos, na rua Eduardo Riedel, que, posteriormente, teve o nome alterado para avenida André Luiz Lá foram construídas quatro unidades: em 1962, 1964, 1968 e 1974.

Ocupando 35 mil m² de área construída, são muitas as mãos que fazem isso tudo funcionar. As Casas André Luiz dedicam-se ao atendimento exclusivo à pessoa com deficiência intelectual, leve, moderada, grave e profunda, com ou sem deficiência física associada. Todos os pacientes internados exigem cuidados contínuos, por toda a vida. A Unidade de Longa Permanência tem capacidade para atender 610 pacientes; 80% deles são casos graves, e mais de 50% são acamados e/ou cadeirantes. A demanda do atendimento não parou de crescer: em 1991 foi inaugurado o Ambulatório de Deficiência Intelectual de Vila Galvão, em Guarulhos, que presta atendimento terapêutico a mais de 1.200 famílias, que são estimuladas a se envolve em nossas atividades.

A pessoa com deficiência intelectual é um universo à parte, onde as limitações psicológicas e motoras se fazem notórias. No entanto, tem seus direitos básicos e fundamentais consagrados por convenções e normas internacionais. É compromisso da Instituição protegê-la por meio de ações terapêuticas, promovendo a sua inclusão social, sensibilizando as pessoas a respeitarem seu direito de crescer em condições de liberdade e dignidade. Quem visita a Instituição é tocado profundamente em sua sensibilidade e se contagia com o entusiasmo que o trabalho oferece.

Qual é o maior desafio de gestão que vocês têm hoje? E os planos para esse ano e próximo? Nosso maior desafio ainda é a sustentabilidade financeira. Em 2020 tivemos algumas lições. Foram muitas dificuldades: queda brusca nas doações e aumento exorbitante nos preços dos insumos hospitalares, interrupção dos atendimentos no Ambulatório de Deficiências, diminuição nos serviços de telemarketing, fechamento dos bazares Mercatudo, cancelamento de eventos, proibição de visitas e de trabalho voluntário e, por fim, o pior de todos os cenários: a entrada do vírus na Unidade de Longa Permanência. Para cada obstáculo, no entanto, uma solução: formas alternativas de captar recursos – a exemplo da criação da Loja Virtual Mercatudo –, prospecção de novos parceiros para a transmissão de lives beneficentes e abastecimento do estoque de suprimentos, implantação do teleatendimento, medidas de prevenção e de combate à doença e muito mais.

Com ética, transparência, inovação e responsabilidade social, as Casas André Luiz seguem firme na missão de “gerar o bem no cuidado e na transformação das pessoas em prol da inclusão social, assegurando assistência de qualidade à pessoa com deficiência”. Assim, redobramos os esforços e planos para a captação em 2021.

Conta pra gente o maior orgulho do trabalho? Vou contar a história do paciente Dillan Sanches do Nascimento, que está na Instituição há 16 anos e, no ano passado, foi diagnosticado com Covid.

“Quando a gente ficou sabendo que o exame (de coronavírus) deu positivo, meu chão abriu. Eu pensei que ia perder meu filho (…) que não ia poder dar tchau para ele. A doença ainda era novidade e eu tinha muito medo de perdê-lo. Isso acabou comigo”, afirmou sua mãe, Terezinha Sanches, quando recebeu o diagnóstico. Apesar da gravidade, esta não era a primeira provação da família. Dillan nasceu prematuro, com apenas seis meses, e dentro de um táxi. O recém-nascido foi levado às pressas ao hospital mais próximo e, dali, ao Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da FMUSP. “Ele permaneceu sob cuidados especiais por quase três meses, entre a vida e a morte. De lá para cá, a gente nunca deixou de lutar. Estamos batalhando, juntos, pelo direito do Dillan viver”.

“Quando eu me mudei para o bairro (Picanço, em Guarulhos), soube da Unidade de Longa Permanência da Casas André Luiz. Mandei uma carta com a foto dele, contando um pouco sobre a nossa história. Em menos de um mês, conseguimos atendimento”. Muito amor, carinho e atenção construíram a base de um relacionamento forte e exemplar, e a presença da família foi importante para o desenvolvimento de Dillan. Porém, quando a pandemia veio, assim como suas respectivas restrições sanitárias, as visitas cessaram. “Eu me senti muito mal, muito perdida, porque eu venho visitá-lo todo o fim de semana. Foi doloroso para mim, e eu sabia que seria bastante difícil para ele também. O Di é audição, é contato. Meu medo era ele entrar em depressão, ficar triste por não sentir a nossa presença, tanto a minha quanto das irmãs”.

No entanto, depois de muita oração, a notícia tão aguardada veio: Dillan estava curado. Terezinha conta que ligou todos os dias para que o filho pudesse ouvir sua voz e saber que a família estava presente. A enfermeira, segundo contou mais tarde, dizia que o caçula sorria, e que isso lhe dava forças para continuar. “Eu só pude vê-lo no dia em que gravaram o vídeo, quando ele saiu da UTI. A gente chorou muito, chorou de felicidade, de alívio, de vitória. Eu estava no serviço. As meninas me mostraram no Instagram e eu não conseguia parar de chorar. Difícil foi esperar, acho que cinco meses, para visitá-lo. É muita emoção, um sentimento que não cabe dentro do peito”. Dillan é um vencedor que não se intimida diante dos obstáculos da vida. Apesar das limitações, este guerreiro é exemplo de perseverança para todos nós. Terezinha, por outro lado, é sinônimo de devoção e amor; uma daquelas pessoas capazes de mover montanhas em nome do filho. Os profissionais da Casas André Luiz se sentem honrados em fazer parte desta história, em receber tamanho voto de confiança e ser a instituição responsável por atender as necessidades deste e de todos os demais filhos e filhas acolhidos pela Instituição.

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